
Fiquei imaginando qual deveria ser a sensação de ser ninada por uma das vozes mais comoventes do Brasil. Pedro Mariano, fruto da união entre Elis Regina e de César Camargo Mariano teve esse privilégio. Pedro Mariano é o filho do meio, antes de Maria Rita e depois de João Marcelo ( do casamento com Ronaldo Bôscoli). Ele foi até Piracicaba, com uma turnê que leva seu próprio nome (nada muito original) e revela o convívio de sete anos do músico com o grupo que o acompanha. Ao todo são quatro integrantes mais Pedro, mas na “cidade onde o peixe pára” compareceram apenas dois: Conrado Goys (violão e guitarra) e Leandro Matsumoto (contra-baixo).
O trio parece ter dado conta da proposta de Pedro, que tocou algumas composições próprias e parcerias. Houve o que ele chamou de “momento karaokê” em que o filho da Elis emplacou alguns sucessos que, confesso, nem sabia que eram dele.
Fui vê-lo com a intenção de ver como se comportava ao vivo o filho de uma das minhas cantoras preferidas. Não sei se existe um gene musical, mas se houver, Elis certamente foi generosa com ele. Pedro não só é tão afinado como a mãe como é ótimo instrumentista. Seu talento deve ter herdado de César, que também é músico e produtor renomadíssimo no meio artístico.
Os músicos tocaram como se estivessem num ensaio de garagem. Só que esta garagem contava com uma platéia de pelo menos 300 pessoas. Quando cantou “Ladeira da preguiça” não pude deixar de notar: Pedro fecha os olhos enquanto canta, assim como fazia Elis. Como se para cantar aquela letra fosse necessário ir a um outro lugar, buscar um sentido e só depois passar aos ouvintes. Claro, Pedro não é tão cuidadoso nesse sentido quanto a mãe, mas me fez lembrar do sorriso inesquecível de Elis e que eu, com meus vinte bons e poucos anos, só pude ver pela TV. Ela cantava essa composição de Gil, de 1971, dando gargalhadas. Não sei o que achava tão engraçado, pra ser sincera.
Pedro também se lembrou dos 50 anos de Bossa Nova e cantou “Tem Dó” do Baden Powell e do Vinícius de Moraes. (E por falar em Bossa Nova, na Oca, no Parque Ibirapuera está acontecendo uma exposição imperdível sobre o movimento. Eu não pretendo perder. Quem sabe não é assunto para um próximo post?).
A música com a qual mais me identifiquei é também a que deu sentido ao disco. Pedro revelou ser ela a razão do disco existir. Ainda não conhecia, mas é encantadora, melodia e letra.
Aproveitem a Ventania, de Jair Oliveira.
Ela chora tempestade
então chove lá fora
nem mesmo ela sabe
como que controla
pensamento é furacão e vento
ela canta sinfonia
amanhece o dia
ela sonha
nasce a fantasia
ela apronta outra ventania
ela muda o tempo
ela inventa a hora
ela faz historia
em cada momento
ela muda o tempo
ela inventa a hora
ela faz historia
em cada momento
Refrão:
Por isso é ela
meu vento é ela
Eu perto dela
meu tempo é ela
Obs: A foto foi uma gentileza do meu cunhado Matheus, que me acompanhou no show.
