Jornalistas, creio eu, devem ter mais do que uma network obesa para sobreviver à loucura do dia-a-dia da imprensa. Devem ter amigos! Para os percalços que a vida da reportagem traz, um ombro, um favor, um conselho, um abraço, enfim, são sempre muito bem vindos.
Eu coleciono os poucos e bons. Juliana Damante é uma entre eles. Ela, assim como eu aspirante a jornalista, teve um encontro inusitado com ninguém mais, ninguém menos que Cauby Peixoto. Eu que prefiro não escutar Cauby nem no carro, nem em casa, não pude deixar de reconhecer a sorte da amiga em presenciar uma entrevista, tão de pertinho, com essa verdadeira lenda brasileira.
Eis o que ela sentiu:
“Eu, que nasci na época em que as Chiquititas eram programação obrigatória do meu fim de tarde; que escolhi ser uma das belas e esbeltas Spice Girls; que vi os Backstreet Boys na MTV mesmo sem gostar de nenhum deles; que passei precocemente (por causa da irmã mais velha) pelos hits do Bon Jovi; que sabia que às seis da tarde a Malhação estaria malhando a idéia de nós adolescentes, da minha turma que saía de casa, voltava cedo, e se encontrava nas salas de bate-papo e no ICQ; eu, que nasci sem o Ciberespaço e quando estava na sexta série abri meu primeiro e-mail gratuito: judamante@rocketmail.com.
Hoje, poucos anos depois para a história de um país, nação, ou canção, me emociono com a Dona Natalina, nascida em 1922, a votar na última eleição por vontade própria, filha da ditadura; continuo com este mesmo e-mail ainda em vigor mesmo após ter sido comprado pelo Yahoo; e me emociono e reverencio alguém que fez parte da história da música brasileira como Cauby Peixoto.
Os cachos, artificialmente encaixados e avermelhados, fazem forte a identidade do cantor. As mãos trêmulas e as unhas um pouco amareladas não têm o mesmo tom da moderna camisa que veste. A dificuldade de ouvir a voz baixa do jornalista que o entrevistava não deixava que seus olhos atentos se perdessem; apenas que no silêncio, às vezes de segundos longos, deixasse o pensamento demoradamente vago responder às questões. Circundado por uma senhora, tão simples e simpática quanto suas vestes aconchegantes, Cauby acomodou-se em uma das poltronas do saguão do hotel. A tal mulher, cujo nome não sei, ao ser questionada sobre o seu próprio CPF, disse não o tê-lo em mente. Na verdade, decorado mesmo, estão todos os números dos documentos de Cauby. Ele, a história que respira um toque do seu passado artístico ainda vivo, mostra de uma forma deliciosamente lenta a partir de suas palavras, como se faz um artista das antigas.
A luz do sol que entrava pelas nesgas do teto deixava seus cachos ainda mais avermelhados. A fotógrafa, muito discreta e conscientemente preocupada, não usou flashs. Preferiu não atrapalhar com as luzes artificiais, mas, mesmo assim, chamou a atenção de Cauby. De repente, quando a entrevista encerrou, o cantor parou e olhou fixamente para a lente. Na mesma velocidade lenta da fala mansa, abriu um meio sorriso de canto de boca, apoiou o cotovelo direito sobre a perna com a mão fechada sob o queixo e esperou a fotógrafa apertar os inúmeros disparos dos dedos ágeis no botão. Desmanchou a pose e disse:
- Sabe quem me ensinou a posar assim?
Ele mesmo respondeu:
- Carmen Miranda.
Mal terminou de dizer a última sílaba e eu sorri ao mesmo tempo em que meus olhos se fecharam por segundos, na doca lembrança do que não vivi, ouvi, nem vi na infância, mas rememorei dos registros em preto e branco dos livros e dos arquivos da TV e recordei do esplendoroso sorriso das mãos dançantes de Carmem Miranda. Carmen da audácia e brasilidade de mulher. Hoje, ligo as rádios e não encontro nem as Carmens, nem as Mirandas, nem a Conceição.
Vida longa a Cauby Peixoto! Afinal, a história e a música pulsam em seus pulmões mesmo com dificuldade de respirar.”
Juliana Damante é uma jornalista literária brilhante, mas ela ainda não sabe disso. Ela colaborou gentilmente com esse post. Quer dizer, ficou na conta para mais tarde.

