Já escrevi sobre o Ney. Eu sei. Minha memória não é tão fraca. Acontece que só ontem consegui tirá-lo da minha lista de artistas que eu gostaria de ver de perto.
Foi como escutar cada música pela primeira vez. Ney tem esse poder. De te fazer prestar atenção a outros versos, outras palavras, que na voz de outros intérpretes não soam com o mesmo sentido. Foi assim quando cantou “O tempo não pára” para uma platéia cheia de gente que, na época, deve ter feito com que Cazuza escrevesse “A tua piscina tá cheia de ratos/ Tuas idéias não correspondem aos fatos”. Paradoxal!
Engoliria o paradoxo e guardaria os pensamentos na minha cabeça se não tivesse presenciado uma cena típica de um país que ainda não se livrou da enorme mancha do preconceito.
“Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro/ Transformam o país inteiro num puteiro/ Pois assim se ganha mais dinheiro”. E o verso não saiu mais da minha cabeça depois de escutar as palavras perversas do “senhor” que passava ao meu lado, na saída do show. (Não dá pra escrever aqui o que ele disse!)
Tudo bem. Acho mesmo que toda generalidade é burra e certamente havia muita gente bacana naquele show, mas não dá pra fingir que não aconteceu. É a minoria podre que estraga o resto!
Eu também sei que isso acontece todo dia. Todo dia! Não escrevo pela surpresa, mas pela indignação e por considerar que até ela desaparecer… aí sim é que estamos perdidos!
Eu, com a minha imensa dificuldade de ficar quieta, acabei falando (alto, para que o maluco pudesse ouvir, claro!) o que eu pensava sobre aquelas palavras. Mas, saí de lá sem arrumar briga. Juro! Estava emancipada demais, depois de ouvir e (finalmente!) ver o Ney, para deixar que esses “de alma tão pequena” me tirassem do sério. Afinal, o tempo não pára, não é mesmo?

Januária, esteja sempre indignada. Essa é a essência que não deixa o tempo parar…