Banda Larga Cordel

Por Cecilia Castro em 22 de Agosto de 2008

Os quatro anos de “recessão” no quesito composição deixaram o ex-ministro sedento pela forma de expressão que melhor sabe usar: a música. Banda Larga Cordel, com muitas canções inéditas, veio como resposta a esse período.

O disco remonta a idéia da interferência das novas tecnologias na vida cotidiana, já exposta uma vez em “Quanta” (1997), trabalho de Gil que mescla arte, ciência e tecnologia. Dessa vez, o artista parece ter se inspirado nas questões defendidas por ele no Congresso. Gil fala das implicações advindas da modernidade, da interatividade, da disponibilização de conteúdos… Tudo norteado pela poesia de cordel.

Nos shows da turnê que leva o mesmo nome do disco é permitido todo o tipo de gravação, com câmeras e celulares. Tudo para estar conectado ao “clima” do disco.

A respeito da linguagem escolhida, Gil disse, em entrevista feita por Andrucha, que é o que há de mais sedimentado nele, “essa linguagem simples, sem rococós, o cordel”. “O disco não tem rodeios, é um reingresso numa dimensão autoral, é o Gilberto Gil dizendo…”, complementa.

Criatividade, sensibilidade! Quem mais escreveria a frase “vontade de mijar” e a colocaria em uma canção como se fosse expoente do lirismo poético? Quem conseguiria provocar emoção com esses versos?

É em “Eu não tenho medo da morte” que isso acontece. Sobre a canção, Gil admite ter escrito uma “espécie de irmã pagã de ‘Se eu quiser falar com Deus’”. Ele, que já cantou que morrer deve ser tão frio (em “Aqui e agora”, Luminoso de 2006), nessa faixa convida o ouvinte à reflexão. “A plena ausência e plena presença de Deus acabam se encontrando nesse fato trágico de que Deus é esse ser desconhecido”, como tentou explicar na entrevista.

Banda Larga Cordel é então temática moderna, reflexão filosófica e cordel. Tudo misturado num caldeirão de originalidade desse artista brasileiro.

Comentários (2)

  1. Por Tiago Wolff Beckert em 23 de Agosto de 2008

    Enquanto Gil, liberto de seus afazeres governamentais, busca seu reencontro com o público por meio de músicas inéditas, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o expoente do Tropicalismo e o “mocinho” da Jovem Guarda unem-se para celebrar nada mais nada menos que Tom Jobim, encarnação da Bossa Nova. Sem citar os novos shows de Chico Buarque e de João Gilberto.
    Momento sublime da música popular brasileira.
    Aproveitemos, enquanto ainda há condição para isso.
    Quem sabe esse incentivo faça com que surjam novos nomes e com que prestemos atenção no que já há de novo, e que sejamos presenteados com composições ao menos um pouco mais intensas do que aquelas contidas na “Dança do quadrado”…

  2. Por Ju em 25 de Agosto de 2008

    Obrigada pelo comentário Thiago. E o que disse é bem verdade: “aproveitemos enquanto há condições para isso”. E uma pergunta paira no ar: Quem substituirá essa galera? Novos nomes sempre aparecem por aí, mas quais os novos “Chico”, os novos “Tom”? Quais os novos “Gil”, “Caetano”? E as novas “Gal” e “Bethânia”? Os tempos também são outros e isso daria vários outros posts… Por enquanto fica a deixa. Um abraço.

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