“Palavrão é a miséria”, dizia ela, quando contestada a respeito dos inúmeros palavrões que insistiam em sair da sua boca, sempre rubra. Dercy Gonçalves morreu, aos 101 anos, no último sábado, 19. Entre tantas homenagens feitas a ela, muito mais importantes que esta, eu não quis ficar de fora.
Como bem escreveu Ruy Castro em crônica chamada “Sábia Dercy”, de seu livro Ungáua, quando Dolores Gonçalves Costa - nome verdadeiro de Dercy - nasceu, o presidente da República era Rodrigues Alves. “Ela passou por 24 presidentes, três golpes de Estado, duas longas ditaduras, um suicídio, uma vacância por morte e um impeachment”. Estranho contabilizar presidentes. Mais ainda somar guerras! “Dercy nasceu muito antes da Primeira Guerra (1914-18), da Revolução Russa (1917) e da Gripe Espanhola (1918)”, lembrou Ruy. Quando tudo isso aconteceu, ela já tinha idade para ler a respeito nos jornais.
Das diversas feridas que teve na vida, de amor, de sexo, de solidão, até os paetês e purpurinas da “perua”mais jeitosa do país, Dercy sempre se esforçou para colocar a arte em primeiro plano. Mesmo que por vezes de forma absurda e contraditória. A rainha da comédia tem trechos muitos dramáticos em sua história: Dercy revela que já se vendeu por dinheiro e que tentou interromper, a socos, a gravidez da única filha que viria ter, para não atuar barriguda.
Diante de tantos erros honestamente admitidos, a artista, em seus depoimentos (nos quais fui recolher informações), nunca deixou de aliar as falhas à possibilidade de consertar, de rever, de se reinventar. “Errei sim. Muito. Mas tive tempo de consertar”, disse ela no documentário exibido pela TV Cultura em virtude de sua morte. É desse arquivo a maioria das frases que separei para este post. As colocações da brasileiríssima Dercy servem de ânimo, de antídoto para o ócio, para a estupidez e acima de tudo, para a apatia que se vive hoje. Seguem, então:
“Na rua faço questão de ser exemplo de vida, mesmo que chegue em casa e desabe” – Dercy com 100 anos
“Não tenho nada contra a morte, não tenho nada contra a vida. Portanto, penso que nenhuma delas tenha nada contra mim” – Por Dercy, segundo Homero Kosacc, ex-namorado
“Deus me ajudou tanto, me protegeu tanto. Deus foi mais que meu pai, foi meu amante apaixonado” – sobre Deus!
“Eu sou o que sou, não posso ser o que eles querem” – Dercy sobre seu temperamento
“Cortar tudo o que não presta”- Dercy sobre vaidade feminina e plástica
“A única coisa que eles têm são os artistas” – sobre o povo brasileiro, desamparado em muitos sentidos, na opinião dela
“Dirigir Dercy é como alterar o curso do Rio Amazonas” – Marcos Caruso
“Ganhei dinheiro com palavrão pra caramba. Não tenho medo de falar, porque tenho certeza de que não é palavrão. Palavrão, meu filho, é condomínio, palavrão é fome, palavrão é a maldade que estão fazendo com um colírio custando 40 mil réis, palavrão é não ter cama nos hospitais” – sobre palavrão
“Falta energia para levantar, para urinar, eu não arroto, pó. Se eu titubear, não levanto de manhã. Não posso baixar a guarda” – sobre ter 100 anos, na época
“Eu sou fã de mim” – ela, por ela, para ela, e sem querer para o Brasil



